“Cicatrizes” no corpo e na alma
Tudo isso aparece também em Cicatrizes (Balaio, 2023), sexto livro do poeta baiano Carlos Machado (Muritiba, 1951). Sim, o livro abarca todos os temas de Du Bois e outros, mais ligados à história do Brasil. Até porque, “não diferem o historiador e o poeta, por escreverem em verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto [485 a.C.- 425 a.C.] e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa)”, como escreveu Philip Sidney (1554-1586), em An Apology for Poetry (1595), citado por Percy Bysshe Shelley (1792-1822) em Defesa da poesia (Lisboa, Guimarães Editores, trad. J. Monteiro-Grillo, 1972, p. 103).
Recorro a outra menção duplamente terceirizada. No ensaio “Sobre alguns modos de ler poesia: memórias e reflexões”, Alfredo Bosi (1936-2021) cita a visão de Victor Erlich (1914-2007) da concepção de poesia de T. S. Eliot (1888-1965): “A poesia [escreve Eliot] pode ajudar a romper o modo convencional de perceber e de julgar [...] e faz ver às pessoas o mundo com olhos novos ou descobrir novos aspectos deste” (Leitura de poesia, São Paulo, Ática, 1996, p. 31). O próprio Bosi diz isso de outra maneira no capítulo “Os estudos literários na era dos extremos” de Literatura e resistência (São Paulo, Companhia das Letras, 2002, p. 255): “Nem tudo o que é dito novamente é simplesmente dito ‘de novo’; novamente pode ser também advérbio de modo; dizer novamente: dizer de maneira nova”.
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Carlos Machado © Raul Junior |
Carlos Machado, que vive há cinco anos em Salvador depois de ter trabalhado por quatro décadas como jornalista em São Paulo, sabe muito bem disso tudo, o que se pode constatar na leitura de Cicatrizes. O volume reúne poemas, alguns publicados em outros livros do autor, em antologias, sites, jornais e revistas, sobre a chaga do racismo histórico (e seus cruéis desdobramentos) e ainda em pleno vigor no Brasil.
A exemplo de outras obras de vários gêneros lançadas nos últimos anos no país, safra tão profícua (por vezes de qualidade duvidosa), Cicatrizes não teve a atenção (por que será?) que merece da mídia cultural nem da crítica literária. Ainda que não seja recém-lançado, é e será sempre novo um livro magistral como esse de Carlos Machado. É a sua mais vigorosa, visceral e coesa coletânea de poemas. Como o vinho, obra literária autêntica torna-se melhor com o tempo. Convite e aviso ao leitor, o texto transcrito na contracapa, “Boletim de ocorrência”, vai ao cerne da questão e revela o tom do livro:
Alguém já leu algo similar, tão forte assim, em obras recentes e mesmo em clássicos do gênero? E olhe que se trata apenas de um dos “poemas baseados em fatos reais” e no nosso “monstruoso pecado original, a escravidão”, como bem diz nas orelhas do volume o professor e escritor Marcílio Godoi. Há vários outros poemas que imprimem “com tanta elegância e ritmo um grito de guerra necessário e inquietante”. No consistente prefácio “À flor da pele, ao fundo do verso”, Júlio Machado, poeta e professor de Literaturas Africanas na Universidade Federal Fluminense, lembra que dona Neném, avó paterna de Carlos, orgulhava-se “do neto capaz de ler, já aos quatro anos, os nomes das ruas e das lojas nas placas” de Muritiba, no Recôncavo Baiano. Júlio não é parente do autor de Cicatrizes.
Cinco partes distintas mas interligadas compõem a coletânea: Vozes, Figuras, Beco da Esperança Batuque e Liberata. Vozes, observa o prefaciador, traz ressonâncias ou “cicatrizes” da infância do poeta; em Figuras, “abre-se espaço para o coro das afinidades eletivas, dos companheiros e companheiras de trincheira”; no Beco da Esperança estão poemas, à maneira de Manuel Bandeira (1886-1968), inspirados em notícias do dia a dia; Batuque registra a musicalidade, “onipresente na África e em suas diásporas”; Liberata “evoca a definição mesma de orixá: ancestral que por seus atributos foi alçado a uma condição semidivina”.
Embora o tempo de Vozes seja da infância, nada há de pueril ou singelo nessa primeira parte do livro. Já no primeiro poema, “Um verbo”, o poeta conjuga “o verbo fustigar/ e seu trigo de ódio”. Em “Vozes”, ele ouve “cantos de pássaros,/ ecos de infância. // Ou então vozeios mais longínquos/ Ruídos, gritos de sequestrados./ Vozes d’África”. Em “Idioma”, é ainda mais contundente: o menino aprendeu “a conjugar / essa língua/ que tem sílabas de ferro/ e ritmo de logro.// Bebi sua sintaxe; dentro do leite materno.// Por isso às vezes as palavras/ me queimam/ como ferro em brasa.” Ele recorda em “Cicatrizes” que não há somente a da pele, “mas há outra cicatriz/mais funda e insalubre// Essa permanece viva/ lá dentro/ onde o chumbo não penetra/ onde o aço não vai”. O poeta sabe de cor (“Viés”) uma profunda dor interior, “aquele olhar de viés/ aquela palavra oblíqua”, que ferem mais que fuzis ou punhais. Doloroso também é o poema “Silêncios”: “Tenho silêncios maduros/ empedrados na garganta” de séculos. Sente em “Dores e moendas” o sofrimento de estados irmãos: “Minas dói./ Pernambuco mói. / A Bahia rói/ osso amargo de sua alegria”. E revela seu último desejo em “Cemitério dos Pretos Novos”: “Enterrem minha alma/ no Cemitério dos Pretos Novos./ Quero estar com/ eles, os africanos sobreviventes/ da travessia”.
Em Figuras, Carlos Machado rende homenagens a vultos como Madame Satã, Virgínia Rodrigues, Rosa Parks, Nina Simone, Carolina Maria de Jesus (o poema “Quarto de despejo” é dedicado a Audálio Dantas [1929-2018], o jornalista que revelou a escritora), e Lima Barreto: “Há os que perecem/ de violência direta:// bala/ cadeia/ suplício// E há os que sucumbem/ de torturas conexas:// humilhação/ álcool/ hospício// Afonso Henriques/ de Lima Barreto/ foi um caso/ do segundo tipo”. Fecha a seção “Faca de Ponta”, a lembrança do brio com que José Ignacio, negro cativo de Felix da Silva Monteiro, nos anos 1830 respondeu ao secretário da Câmara de Santo Amaro, Attaide Seixas, que quis saber quem ele era: um cidadão como você, e lhe mostrou uma faca de ponta, “batendo com ela sobre a mesa” (episódio relatado em Rebelião Escrava no Brasil, de João José Reis, citado como epígrafe do poema por Carlos Machado). Alguns versos: “Ah, Ignacio, bravo Ignacio,/ quanto logro, quanto não.// Os donos do capital [alô, Du Bois!]/ têm artimanhas do Cão. // Dividem o que é igual,/ lançam irmão contra irmão.// E até hoje nesta terra/ negro não é cidadão”.
“Boletim de ocorrência”, o poema da contracapa de Cicatrizes, está no bloco Beco da Esperança, ao lado de outros textos tão contundentes quando ele. Cito alguns exemplos. “Dízima: 3,33”; eis sua estrofe final: “A cada três horas/ dez pretos e pardos/ são dizimados/ na cordial/ terra brasileira.” E a de “Beco da esperança, n. 3”: “Uma bala de fuzil/ no peito –/ e adeus à vida breve e baça de Abraão:/ negro,/ 15 anos,/ catador de latas,/ morador no Beco da Esperança” [Ave, Bandeira, parece gritar o autor de Cicatrizes.]. Poemas como “Luto” (“luxo” que “a viúva/ de pedreiro negro/ abatido pela polícia” não tem); “Gaza” (Uns versos: “Gaza fica muito longe./ Mas Gaza é também aqui:// Vigário Geral, Cabula,/ Jardim Ângela, Acari.// Em Gaza opera-se no atacado./ Aqui, aos poucos, no varejo.// A cada hora, menos três,/ e o resultado é o mesmo”.); “Conselhos” (o inocente preso, sem saída, sem direito à Justiça); e “Iguais” (“cristã” que faz “caridade”, proprietária de loja, chama a polícia porque “gente maltrapilha” perambula por ali, nada compra e espanta “os verdadeiros clientes”.)
O texto “Tataravó”, o primeiro do bloco Batuque, tem como epígrafe este verso doloroso do poeta negro baiano José Carlos Capinan (1941): “Quem me pariu foi o ventre de um navio”, parafraseado no corpo do poema. As duas estrofes finais relembram aquela dor, contêm perguntas e sugerem uma resposta: “Ela está lá. Para qualquer lado que te voltes,/ ela te mira nos olhos e pergunta:// E então, tataraneto?/ O que fizeste por nós?”. A resposta latente, viva, é a obra do poeta. Machado fez e faz muito, com destemor e esmero, força ética e poética. No poema “Marujada”, o poeta bebeu o oceano inteiro na travessia, “Por isso canto/cantigas de marinheiro”. Em “Três baianas” (de barro), Machado dialoga com o poema “Balada das três mulheres do sabonete Araxá”, de Estrela da manhã (1936), de Manuel Bandeira. A obra-prima dessa quarta parte do livro tem o título dela, “Batuque”, texto cantante que incorpora, em itálico, o refrão “Sou eu/ Sou eu/ Sou eu, maculelê, sou eu”, um canto de domínio público, “o mais conhecido do maculelê, dança marcial afro-baiana, praticada em especial em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo”, esclarece o poeta, que conhece esse refrão desde criança. Um pouco do poema de Carlos Machado: “Os dengos da noite/ e os monstrengos do dia/ – sou eu// João de Deus – sou eu/ Luís Gonzaga das Virgens – sou eu/ Ana Romana – sou eu// Luísa Mahin – sou eu/ Manuel Calafate – sou eu/ Elesbão do Carmo Dandará – sou eu”.
Poema primoroso também, talvez a pérola mais valiosa do volume, dá título à porção final do livro, “Liberata – Canto para uma deusa de ébano”. Um texto para ser lido a meia voz, devagar, com a alma. Liberata, o poeta esclarece nas Notas no fim de Cicatrizes, é “o nome da mulher escravizada que busca a alforria na Justiça, estudada pela historiadora Keila Grinberg no livro Liberata: a lei da ambiguidade”. Evocada nas oito partes do poema, Liberata evola de um estudo acadêmico para simbolizar o grito de liberdade do livro de Machado. Esses são os versos mais líricos, ainda que doídos, de todo o livro. Um hino à liberdade, ainda que tarde. Um pouquinho dele: “Um dia,/ na margem do rio,/ plantei uma flor.// Dela não sei o nome. / chamei-a/ Liberata.// Chamei-a Liberata,/ nome de flor/ e mulher, nome de nuvem./ Sussurro/ de vento livre/ Nome de sonho.// [...] No lusco-fusco,/ Liberata,/ chamo teu nome de flor.// No hálito quente/ da noite,/ acaricio nos lábios/ teu nome,/ convoco a legião/ de pirilampos/ para desenhá-lo/no breu.// [...] Sempre haverá/ quem/ te chame, Liberata.// Liberata. Liberata. Liberdade”. Trabalho de poeta maior, Cicatrizes permanecerá como um clássico da poesia de temática negra na Literatura Brasileira. Há 23 anos, Carlos Machado edita e distribui gratuitamente por e-mail o boletim quinzenal poesia.net: algumapoesia.com.br. Agora em março de 2025, ele publica novo livro de poemas, Cais da Memória, pela Editora Patuá.
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Cicatrizes, de Carlos Machado. São Paulo: Balaio Editorial, 2023. R$ 39,00. balaioeditorial.com.br. Livro disponível na Amazon.
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Hugo Almeida (1952), jornalista e escritor mineiro radicado em São Paulo, doutor em Literatura Brasileira pela USP, é autor de vários livros, entre eles o romance Vale das ameixas e o ensaio livre A voz dos sinos, sobre o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins, ambos publicados em 2024 pela Sinete. hugoalmeidaescritor.com.br
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